Os aspargos

spargel-schaeler-handtuch

Meu atual marrrida, antes de se tornar marrrida, para me agradar (sabendo que eu adoro aspargos), comprou 2 kg de aspargos de primeira, descascou, lavou, embrulhou num pano de prato úmido e empacotou numa caixa do Correio Limão. Depois, me mandou email dizendo do envio. Passei até mal. Torci muito para que o pacote nunca chegasse. Rezei para que fosse incinerado. Nada! Um dia me liga uma funcionária da agência de Correio mais próxima de casa, perguntando se eu era eu. Eu era eu. Aí ela disse, só conseguimos decifrar seu nome e seu telefone num pacote que chegou aqui. A senhora poderia, por gentileza, vir até aqui para recebê-lo? (Fazia um mês que o desinfeliz do marrrida tinha mandado.) Acendi umas velas, fiz promessa, orei. Tudo para que os aspargos estivessem mumificados. Cheguei na agência, disse meu nome e nem precisei dizer o que eu queria. A funcionária me fez sinal para ir até uma porta lateral e entrar. Foi o que fiz. Ela apareceu com um barril de plástico, bem tampadinho. Quando ela abriu o tal barril, tirou de dentro dele um saco plástico de lixo com a boca bem amarradinha. Nele se via uma sombra negra semilíquida, que se movimentava para lá e para cá. E um pedaço do pano de prato xadrezinho azul e branco. Imediatamente a agência parou. Todo mundo olhando para mim e um fedor duzinferno emanava do saco. Me pediram para identificar o “pacote”. Não dava. Prá ir embora logo, falei que sim, eu sou eu, o pacote é meu. Foi um amigo de papai que me mandou alguma coisa, que nem sei o que é.

Anúncios
Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Viagem ao interior do Ceará

Durante 1 ano morei em Fortaleza e viajava constantemente a trabalho. Um dia, tive que ir de Fortaleza para uma cidadezinha no sertão cearense, para tratar  de assuntos de um convênio para o qual trabalhava. Fui eu e Natércio, um cabra que era diretor financeiro do convênio.

Fomos até o aeroporto e pegamos um aviãozinho pequeno, bimotor. Só de ver o avião já me deu frio na barriga. Mas como não sou muito de esquentar a cabeça, pensei Augen zu und durch!

Chegamos à cidade e, por alguns dias, trabalhamos, fizemos todos os contatos e no final da tarde do terceiro dia, voltamos ao “aeroporto” pegar o aviãozinho de volta. Era noite. Tivemos que esperar bem uma meia hora, numa salinha pequena com uma placa (irônica?) na porta: SAGUÃO DO AEROPORTO. Havia uma porta de correr de vidro, que dava para a “pista de pouso”. Sentamos ali e nada do avião chegar. Natércio foi até a porta de correr e ficou parado ali, pálido. As mãos apertadas segurando uma pasta de documentos. Começou a suar e hiperventilar. Fiquei super preocupada, levantei, fui até ele e perguntei: “O que foi, Natércio? Tá passando mal?”

Natércio mal conseguiu responder: “Eu não vou embarcar, doutora.” E suava em bicas, nem fazia tanto calor aquela hora.

Perguntei o motivo do não embarque. Ele só apontou a mão para fora. Eu olhei e vi que o asfalto ali, que ia até a pista de pouso, estava coalhado de sapos. Mas tinha muito sapo mesmo, gente! Sapo de não se poder contar, tantos havia.

Minha cabeça foi a mil. A gente tinha que embarcar naquele voo, não tinha jeito. O resto da semana, cheio de reuniões. Voo de volta, sabe-se lá que horas e que dia. Pensei: qualquer coisa, pego o Natércio no colo e levo para o avião. Ele era franzino, não devia pesar muito. Ele só repetia a frase “Eu não vou embarcar, doutora.” O avião chegou. Pensei no mico que seria eu tentando carregar Natércio no colo até o avião. As pessoas que vieram naquele voo desembarcaram, o avião foi abastecido e Natércio suando, pálido.

Foi quando me veio uma inspiração e eu disse: “Natércio, assim que o avião estiver pronto para a gente embarcar, vou abrir esta porta de correr e os sapos irão se retirar. A gente vai embarcar na maior paz. Você nem precisa ficar preocupado.

E não é que foi assim mesmo? Abri a porta, os sapos foram pulando e se abriu um caminho para a gente ir até o avião. Empurrei Natércio para fora, fomos apressadamente até o avião e, uma vez acomodados lá dentro, Natércio me confessou o inconfessável: tinha uma fobia por sapos. Tão grave, que já tinha sido internado por ter apresentado uma reação violenta.

Mandei um louvor de agradecimento ao bom Deus e seguimos viagem.

Duro foi pro Natércio, no dia seguinte, aguentar a zoada dos colegas.

Publicado em Causos nordestinos | 2 Comentários

Faxina de primavera

Hoje começou a faxina de primavera. São Epilador convocado, pernas lisinhas da Silva. Mas falta alguma coisa, não? Unhão feio, não dá mesmo. Foi só pensar em pedicure, me bateu aquela saudade do Brasil. Do Brasil é modo de dizer. Hoje, a saudade é  da minha pedicure. Da lixa grossa sumindo com todas as calosidades. Da cutícula aparada à perfeição. Encho a bacia com água quentinha. Adiciono um sabonete líquido. Pego os apetrechos de manicure. Me instalo na sala. Faço um cappuccino e coloco na mesinha de centro. Ligo o som. Adele canta Someone Like You. Enfio os pés na bacia. 3 minutos. Toca a campainha. No interfone escuto a voz do carteiro: “Paket für Sieeeeeee”. Nem deu tempo de amaciar os cascos…

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Cartinha para o Papai Noel – 1957

Para que não fique perdida entre tantos posts no FB, melhor deixá-la aqui. Com meus desenhos a lápis num papel fininho, amarelado pelo tempo. E a letra de meu pai a legendar cada desejo de criança. Preciosidades. Guardadas pela minha mãe na gavetinha do passado.

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

A vizinha

Bisbilhota aqui e acolá. Faz mil perguntas, não espera resposta para quinhentas. Dá palpite em tudo. E as respostas que dou (quando ela interrompe seu fluxo falatório para respirar, antes de ficar roxa) nem lhe interessam. Sabe quando meu carro saiu do estacionamento. Acho que anota os horários, pois também  sabe quando volto. Com  precisão de minutos. Às vezes, é inconveniente. Não mede as palavras. É daquelas pessoas que não falam. Movimenta a boca, emitindo sons. É como um rio. Flui direto, só acelera ou diminui seu fluir. Mas tem bom coração. Oferece ajuda, rega as plantas. Impossível fazer um bolo sem oferecer um pedaço. E informa melhor que jornal das 7. Não penso em me mudar daqui. Mas, se mudar um dia, levo junto a Angela.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

O interruptor

Não existe nada, mas nada mesmo, melhor que um interruptor. Daqueles pequenos, que a gente vê nas luminárias de mesa. Um interruptor pode valer muito mais que um presente quando instalado no lugar certo. Uma gambiarra que a gente só consegue aqui em Ossieland. Tenta pedir isso em Wessieland. Ah, nao vai conseguir nem pagando. Imagine o seguro da sua casa, o rolo que isso pode dar. É isso que você vai ouvir quando pede um jeitinho.
Mas Micha não vacila. Vem, olha, avalia o risco e pronto. Você passa a ser dona de interruptor. E, depois de limpar o pó de concreto que empesteia o tampo da pia, fica brincando de clic-clac como doida.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Máquina de escrever – Giuseppe Ghiaroni

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário